Um Living para se Encantar

Encantamento e Reflexão

Os anos de isolamento mudaram drasticamente o cotidiano, impactaram comportamentos, rodas sociais, a ocupação e relação com os espaços privados, públicos e coletivos. Transformaram o ser. As demandas contemporâneas despertaram novas significâncias, modeladas por um desejo intrínseco de se reinventar – por necessidade e/ou sobrevivência -, para seguir fabulando os dias.Pautado neste misto de sensações, emoções e sentimentos, além de uma escuta minuciosa, o arquiteto Michael Zanghelini apresenta a sua versão de “Living” na CASACOR/Santa Catarina 2022. E provoca a pensar: como se (re)encantar com a vida?“Passamos por um processo muito doloroso em que tivemos que olhar para dentro, mexer em estruturas sólidas, permitir que outras desabassem. Estamos num momento de reelaboração, uma oportunidade de rever o que faz sentido, o fluxo de nossas energias, onde as depositamos, como vivemos. O espaço é terreno que abarca tudo isso e pode “curar” como prática de vida”, destaca o arquiteto.

 Um living para sentir

 Baseado no conceito japonês do Shibumi – que significa, em linhas gerais, a total simplicidade que é quebrada por um detalhe que enfeita -, o arquiteto desenhou um espaço de convivência que envolve despojamento, forte personalidade e muita criatividade. A intuição foi acolhida no processo e ordena o projeto a partir da composição de materiais naturais, obras de arte impactantes, elementos que revelam o “Infinito Particular” – tema da mostra – do profissional.Desapego, funcionalidade, beleza, liberdade e uma curadoria de arte baseada no inusitado dão o tom ao “Living”, que traz também uma forte influência da astrologia.  A referência é representada numa luminária de cristais alusiva à Constelação de Capricórnio, que, por sinal, é o signo regente de Michael.E por falar em cristais, o ambiente resgata um tipo muito comum utilizado nos anos 1980. Conhecido como nuvens de cristais brutos e combinados à paleta azul predominante do “Living” causam um impacto interessante com a combinação de pedras naturais que revestem as paredes. A iluminação é sutil e evidencia as texturas, os veios das rochas com o leve aquecimento da madeira. As telas de arte em tom vermelho contrastam com outras mais alegres.É um retrato/espaço desse tempo na perspectiva de leitura do arquiteto catarinense, que convida as/os visitantes a adentrar sem medo, sem julgamentos, a sentir, a surpreender, a expor, a viver, a rever. Um “Living” não apenas como configuração espacial, mas ação, protagonismo diário e presença.É ainda um chamamento para reestabelecer conexões sensoriais com a vida dentro e ao redor. Do simples ato de realocar um móvel, do sentir o chão com a sola dos pés, de acolher e receber pessoas. Essa intenção foi bem pensada na disposição dos mobiliários soltos, outros com releituras de peças antigas influenciadas por vivências e as memórias do arquiteto.“O contato com as coisas que fazem bem, de curtir a casa e todas as suas nuances predominam nesse projeto. É um resgate da convivência e do (re)encantamento com a vida”, finaliza Michael, que integra pela quarta vez o elenco da mostra catarinense.

Imagens: Mariana Boro

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