O fantástico particular de Walmor Corrêa

A obra de Walmor Corrêa é um mar de possibilidades fantásticas, nascidas a partir do desenho. Sua poética traz uma coragem singular de mostrar uma outra natureza possível.  Tem algo de curioso, esquisito, mórbido, funesto, horripilante, tudo junto, mas não é. Quando apurada a atenção, vê-se que não se trata de nada desconhecido. Aos poucos, conseguimos reconhecer as partes, montar o todo, entender a beleza de suas reflexões e vamos querendo mais desse interessante mundo particular. A sua fantasia é viciante.

Foi o professor de Ciências que deu um empurrão. Ainda adolescente, foi convidado para assessorar no laboratório da escola. O jovem catarinense – que já ilustrava seus materiais didáticos –  teve na dissecação e no estudo da anatomia seus pequenos modelos mortos. Animais manipulados pelo mestre eram identificados e classificados. Os registros ficaram por conta do aluno curioso.

Volta no tempo e temos o artista criança, acompanhado do pai, mata adentro, ouvindo histórias da floresta, de seus animais e de outros seres mistos, invenções do genitor, que a imaginação infantil recriava exagerando.

O desenho não era seu forte, mas foi aprimorando e a técnica ficou precisa. O contorno, a forma, a delicadeza e firmeza do traço, as cores. Sua pintura é uma visita as antigas enciclopédias que se via na casa dos avós da minha geração. Suas esculturas, tenebrosas criaturas fictícias, bem poderiam ser descobertas científicas, de tão meticulosamente executadas.

Répteis, mamíferos, morfologia, aves, história natural, insetos, teoria evolucionista, lendas do nosso folclore, dioramas, anatomia, homens-animais, gabinete de curiosidades, taxidermia, registros da colonização brasileira, arqueologia…é tanta informação, anos e dedicação focada, que não poderia ser mais assertivo. Melhor ver.

Suas invenções se materializaram após viagem à Amazônia, no final da década de 90. Incríveis pequenos insetos estrearam na natureza. Em seguida, vieram animais transmutados maiores: pinguins-peixe,  tartarugas roedoras, macacos-ave, acompanhados de descrições textuais, tais quais os manuais de naturalistas ou expedicionários, porém, nada verossímeis. Posterior, vieram os personagens de lendas brasileiras. Então, seus desenhos tornaram-se reais e suas primeiras obras tridimensionais chegaram em esculturas esqueléticas dançantes em caixas de músicas.

Obras da Série Natureza Perversa, 2003 Foto: Christian Carvalho

Obras da Série Natureza Perversa, 2003 Foto: Letícia Remião

O curupira de Unheimlich, imagiário popular brasileiro, 2005 Foto: Christian Carvalho

Em meados da década de 2000, resultado de uma residência em Viena, foi a flora do Sudeste brasileiro que motivou nova série. Embalagens de sementes de plantas e frutas do território foram confeccionadas exatamente como as vistas no mercado. Afora a beleza dos detalhes de cada representação – que de fato seria de se colecionar – o truque de enganar o espectador fica por conta do conteúdo equivocado de cada saquinho, somente sentido pelo toque, e pela descrição absurda de como plantá-las. Sutilezas e reflexões sobre conservação ambiental, também mostrada ao final desta década, através de placas dispostas em um jardim de um museu no Pará, anunciando uma fauna extraordinariamente mentirosa, desenhada sobre fotografias reais daquela biodiversidade.

Mudas de Expedição de Thomas Ender reconsiderada,atenção para a nossa biodiversidade, 2004. Foto: Letícia Remião

Década seguinte, surgem as pinturas de híbridos como flamingo-girafa, ema-coelho… e uma de suas séries mais comentadas devido o uso da técnica de Taxidermia – que por necessidade do trabalho, aprendeu – , onde comete harmônicas junções, imperceptíveis. Como um Deus, ele recria. São roedores-pássaros que pousam em galhos ou se alimentam de restos em uma cena urbana. Em seguida retoma a fábula e surgem trabalhos sobre a Salamanca do Jarau e a construção de um sítio arqueológico com a possível ossada de uma sereia. Cria também dioramas impecavelmente fabulosos, tamanho colorido e composição de plantas e pássaros metamorfoseados com borboletas. No lugar do bico, trombas espirais, na verdade, línguas de borboletas. No papel de cientista da arte, todos os animais transmutados foram adquiridos em empresas especializadas ou oriundos de doações.

              O artista aprendeu a técnica da Taxidermia para compor Você que faz versos, 2010Foto: Letícia Remião

Híbridos, 2011  Foto: Anderson Astor

Também fez o reconhecimento de uma espécie de pássaro brasileiro que só recentemente foi catalogada: a Sporophila Beltoni conhecida como patativa-tropeira. A novidade apareceu durante residência nos EUA, quando pode investigar os arquivos do Museu de História Natural de Washington. A ave empalhada datava de 1820 e estava junto de demais pássaros latino-americanos. O achado virou obra de arte com a demonstração dos documentos (certidão de nascimento, identidade, passaporte etc.) que provam a existência deste integrante da nossa fauna. Mais recentemente esmiuçou a cabeça de Lina Bo Bardi. Um painel de 40 metros com elementos gráficos e caixas de som, representações de conversas com especialistas das áreas da Neurologia, Astrologia, Numerologia, Grafologia e Candomblé, buscaram desvendar a essência da mulher e o cérebro da arquiteta ítalo-brasileira.

Pássaro desconhecido desde 1820 é revelado pelo artista em Sporophila Beltoni, 2018

Foto: Letícia Remião

Walmor em frente a Lina, reconhecimento afetivo Foto: do artista

O mais novo trabalho do artista trata-se de Herbário, um estudo aprofundado de ervas medicinais. Viajou até Belém do Pará e buscou fontes no mercado Ver o Peso, onde se acham soluções para todos os tipos de problemas. Barracas, senhoras e suas receitas para atrações, feitiços e curas. É um universo de crenças em tubérculos e folhas. Na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) buscou um especialista para conhecer a composição química e checar a veracidade das curas apresentadas pelas feirantes. Alguns óleos e vitaminas, de fato curam. A partir de agora, vai analisar as mudas e criar a interpretação que logo se verá em breve em exposição.

Erva Daninha Foto: Millard  Schisler

Nota-se que a pesquisa do artista nas ciências e a consequente expressão na Arte, teve consistência exponencial, com a qual foi ganhando notoriedade ao longo das últimas décadas. Tanto pela profundidade com que trata cada tema de suas séries e como elas apresentam força independente, quanto pelo volume delas, o que torna sua trajetória exitosa. Expôs em salões, mostras – coletivas e individuais – nas principais capitais brasileiras e em Bienais (de São Paulo e do Mercosul) e no exterior, na Argentina, Uruguai, Chile, Equador, Espanha, Alemanha, Bélgica, Holanda, Áustria, USA e África.

Walmor viveu em Porto Alegre (ele veio estudar Arquitetura, aos 17 anos, depois cursou Publicidade e Propaganda). Há alguns anos fixou residência em São Paulo. É de uma simplicidade nas atitudes e de uma doçura e certeza nas palavras. Talvez ele seja uma de suas hipotéticas criações, daquelas que no mundo se desejaria reproduzir em série.

Foto de capa: Letícia Remião

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