As imagens nos habitam

Nos neurônios acolhemos impulsos de todas as vias sensíveis...
Foto de Capa: Irene Almeida

A paraense Flavya Mutran veio para Porto Alegre cursar Mestrado em Artes Visuais em 2009 e hoje é Doutora na área pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua pesquisa aborda novas tecnologias e processos tradicionais de Fotografia e Imagem. Graduada em Arquitetura e Urbanismo (1996) e especialista em Semiótica e Artes Visuais (2004) pela Universidade Federal do Pará, Flavya é uma entusiasta da Comunicação e das inquietações que envolvem narrativas visuais.

Foi como laboratorista e repórter fotográfico de jornais, revistas e assessorias de comunicação, que a pesquisadora intuiu que a memória visual, principalmente nas gerações entre 1968 até efetivamente a disseminação da internet em 1990, foi construída por uma sólida, absoluta e confiável fonte, a mídia. A lembrança que temos no acervo histórico, de situações que emergem no córtex instantaneamente, quando revolvemos o passado, é nada mais que o instante fotográfico de um cidadão – provavelmente um profissional de imprensa – em busca da melhor representação para a massa – e também para si, de algum importante fato ocorrido e posteriormente disseminado, por uma rede de distribuição mundial de notícias. Antes da imagem digital – massificada a partir dos anos 1990 -, aceitavam-se fotografias veiculadas pela imprensa como fatos consumados. Até aí, constatado e comprovado que assumimos e registramos somente o que nos interessa individualmente, podemos dizer que as imagens que formam o acervo memorial de cada um, tem relação direta com as experiências pessoais, modos de vida, grau de conhecimento e o menor dos índices de empatia. Aqui, neste contexto, que Flavya iniciou o desenvolvimento de seu trabalho artístico e conceitual, dissociado de juízo de valor, e passou a investigar em que medida as imagens se misturam e se repetem na nossa lembrança e do que essencialmente é feita a memória histórica.  Profundo, mas tão profundo, que melhor voltar à tona, respirar e mergulhar novamente em exemplos.

Para recomeçar, vamos falar de materialidade. O trabalho artístico nesse caso não precisa necessariamente existir fisicamente, embora Flavya o faça como proposições e experimentos, espécie de jogos, como ela mesma chama, para dar um corpo a sua arte. Mas a materialidade de que trata a artista é fugidia, são estímulos visuais para ativar registros que já possuímos, internalizados em nossa mente, as tais milhares de imagens que estão em nosso acervo intelectual. O legal que essa obra de arte é acessível para todos, mesmo! Experimente e entenderá do que se trata.

DELETE.use é um trabalho artístico que iniciou pequenino em 2012. Interessada em desvendar como recordamos fatos históricos, Flavya reuniu algumas imagens conhecidas da mídia, muitas delas cujo gatilho de lembrança é o desconforto e a sensação de dor – como fotos de guerra, de conflitos armados, de fome e outras penúrias pelas quais o homem pereceu – e retirou a figura central por manipulação digital, mantendo apenas o entorno. Se os estímulos visuais foram capturados a partir do drama, o que sobra? Ela pergunta e responde. A histórica imagem da menina vietnamita correndo nua após sofrer ferimentos de explosivo napalm em um bombardeio em 1972, jamais será esquecida. Porém, há como se lembrar de quantas pessoas estavam com ela na fotografia de Huynh Cong “Nick” Ut, da agência Associated Press? Possivelmente não. Hoje DELETE.use tem cerca de 100 imagens, flagrantes de guerra, fotos de moda, esporte, turismo, arquitetura ou fotografias do campo da arte conceitual, desprovidas do ser humano para “brincar” de se lembrar. “É uma proposição para falar sobre os acontecimentos sem precisar da materialidade, sem precisar da imagem, pois ela já está em nós”, provoca Flavya.

Homepage como os 108 fototerritórios DELETE.use      www.delete-use.photo
Detalhes de uma das montagens da série DELETE.use. Papel jornal em folhas destacáveis para distribuição gratuita nos espaços de exposição.

Essa forma de reacessar o banco de imagens pessoal com fotos universais históricas é uma ferramenta brilhante de reflexão sobre como entendemos as imagens esvaziadas, para questionar quem são os agentes e as narrativas que ocupam o território da nossa memória, se a imagem é realmente o que nos faz resgatar ocorrências. DELETE.use esteve em Leipig, na Alemanha, em março deste ano, na mostra
DIE MACHT DER VERVIELFÄLTIGUNG (O poder da multiplicação), projeto do Instituto Goethe de Porto Alegre, que venceu o Prêmio Açorianos de Artes Visuais deste ano na categoria Exposição Coletiva, com .participação de artistas do Brasil e Alemanha, como Regina Silveira, Carlos Vergara, Vera Chaves Barcelos, entre outros.

“Numa versão diferente, apaguei as personagens de cenas históricas deixando os cenários vazios para novas possibilidades narrativas, ressignificando nossas experiências diante dessas imagens. Utilizei fotos que circulam livremente na Internet propondo que as pessoas gravassem em áudio a narrativa das imagens e enviassem para um site, numa catarse de sensações de quando as fotografias foram incluídas no repositório mental de cada um”. A essas experimentações a artista chama de foto_LAB e já ocorreu de entregar as imagens em folhas impressas para que os espectadores exercitassem desenhar suas recordações. “É revelador. ”, informa Flavya.

Entre 1989 e 2004, Flavya compôs capas de catálogos, livros nacionais e internacionais com suas fotografias. Nos anos 2000 em ‘Quase Memória’ justaposições de fotos em cromo 35 milímetros, misturou imagens de arquivo do trabalho no Fotojornalismo com fotos de família, de diferentes períodos. Tratava-se de uma reflexão sobre a fragilidade da relação entre a matéria e a memória, seja física – corpo, papel, negativo e cópia – seja virtual – lembranças, sensações, esquecimentos.

Imagens de ‘Quase Memória’, na Coleção PIRELLI MASP, 2002, expostas no Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Conceitos como recordar e esquecer também aparecem no trabalho de 2004, ‘Pretérito Imperfeito’, onde um vídeo ficcional trata de uma cidade imaginária, baseada em fotos e fatos reais. Paisagens, cenas e retratos de personagens reproduzem a memória afetiva de Belém, no Pará.

EGOSHOT e BIOSHOT tratam a informação de imagem digital como identitária, quando traz interferências visuais na relação com o rosto, o corpo, o eu. Um desdobramento do gênero fotográfico self-portrait (autorretrato).

EGOSHOT é uma série produzida a partir de longas tomadas condicionadas ao tempo de exibição de relatos audiovisuais criados pelos internautas de diferentes países.  Cada EGOSHOT funciona como uma espécie de mapeamento desses testemunhos pessoais, evidenciando o interesse pela visibilidade e compartilhamento da própria imagem. Por meio de QR-Codes, a artista uniu os relatos pessoais das Redes Sociais de pessoas anônimas a rostos apagados, borrados, manipulados digitalmente. “Ao juntar os EGOSHOTs com os QR-Codes, pretendia expor parte dos questionamentos da pesquisa, e estendê-los para além da academia ou do espaço expositivo, propondo uma reflexão sobre os meios de comunicação e exibição que hoje fazemos uso”, explica Flavya.

Visitantes acessando os daily videos pelos smartphones.

Em BIOSHOT, imagens digitais produzidas a partir do site yearsbookyourself.com, tratam de mutações de identidade, do complexo processo de produção social, política e ideológica que constitui um rosto. “Iniciei por mim, alterei minha rosticidade. Criei documentos de um Pretérito Imperfeito. Só o meu próprio rosto é exposto claramente, mas talvez nem mesmo ele esteja lá entre os 52 espelhos BIOSHOT, pois eles também são simulações, recombinações dos meus traços fisionômicos que derivam da desconstrução e reconstrução da própria identidade, do meu lugar em trânsito contínuo enquanto indivíduo e ser social”. A discussão aqui é sobre a possibilidade de se reconhecer a identidade e o caráter pela composição facial, que contesta a concepção do escritor e filósofo  Umberto Eco (1989: p.14), de que “o rosto é o espelho da alma”.

Flavya participa de exposições coletivas, salões de arte, concursos nacionais e internacionais de fotografia no Brasil e no exterior desde os anos 1990, tendo recebido mais de uma dezena de prêmios. Tem obras em importantes acervos, como na Coleção Pirelli/MASP (São Paulo/SP); na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, na Coleção Joaquim Paiva em comodato no MAM-RJ (Rio de Janeiro/RJ); na coleção de Fotografia Contemporânea Paraense do Museu de Arte Contemporânea do Pará e na Fundação Rômulo Maiorana (Belém/PA); no MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul e MAC-RS (Porto Alegre/RS), entre outros.

Chancelas concedidas por sua habilidade em nos conduzir pela camada mais fina e externa do cérebro, uma das regiões mais importantes do Sistema Nervoso Central, onde os neurônios habitam. É aqui que acolhemos impulsos de todas as vias sensíveis, onde interpretamos e chegamos as respostas à todas as informações. Flavya garante: as imagens nos habitam.

 

 

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