Trivialidades Tridimensionais

Artista multidisciplinar nas artes visuais
Foto Capa: Obra da série 5 sentidos (visão), 2006 Washington Silvera

O curitibano de sorriso fácil, Washington Silvera, é um marceneiro da poesia, um transeunte do cotidiano que enxerga na desconstrução de objetos, um alerta para seus usos. Foi na marcenaria do pai que ele herdou a habilidade em talhar a madeira, suporte da maioria de seus trabalhos tridimensionais, que ele não intitula como esculturas. Para ele, são mesmo poesias contraditórias, que revelam a banalidade dos materiais. “O que separa algo útil de algo inútil, mas útil, é a poesia, e é essa a essência que procuro sempre”, conta.

Ele é um artista multidisciplinar, sujeito de vários suportes, do objeto ao vídeo, da performance à foto. Autodidata, chegou a cursar Artes Visuais na Universidade Federal do Paraná, mas só assistia as disciplinas que lhe interessavam. Ele queria fazer o seu fazer, simplesmente, e completou sua formação na prática artística, expondo seus trabalhos desde 1994. Sua produção iniciou com a utilização e mutação de objetos feitos em madeira, de um formalismo técnico e rigoroso acabamento, peças que são visualmente impactantes e belas.

Jardim secreto, 2006

Paisagem camuflada,  2014  Washington Silvera

A pesquisa do artista pode levar um, dois dias, um ano, oito anos. Há séries que foram sendo desenvolvidas em períodos longos, assim como obras de arte surgiram instantaneamente de “frias”, como ele caracteriza os momentos em que algo errado levou a algo assertivo, na sua produção poética. Esse amadurecimento o fez explorar também outros caminhos na arte, como a fotografia da série “5 sentidos”, o vídeo de “Paisagem Curitibana” e a performance, cujo ápice é o projeto KDE – Kitchen Dub Experience, quando apresenta o seu diploma na Gastronomia.

Sem título, 2008  Washington Silvera

Como chef-artista, ele leva ao KDE toques de arte, circulando pelo vídeo e pela música e claro, pelas artes visuais, na criação e montagem dos pratos. A ação já está na décima edição, entre a capital paranaense e paulista, reunindo até 100 pessoas em jantares performáticos. A ideia surgiu como uma iniciativa paralela a SP-Arte de 2012, quando o professor dos cursos de gastronomia do Centro Europeu percebeu que seria oportuno promover o encontro entre público e artista em ação. Em uma cozinha profissional montada especialmente para o evento, o espectador é envolvido em uma experiência ao vivo, intensamente sinestésica. Em seu atelier-cozinha ele também segue na transformação dos materiais: obras e experimentos relacionam arte e gastronomia como um sabonete comestível que se revela uma deliciosa bavaroise de coco e cupuaçu, com espuma de limão. Dessas ações surgiu o livro Kitchen Dub Experience, que reúne objetos, fotografias e experimentos inspirados no alimento.

Chef-artista em ação no KDE e a obra comestível: sabonete de frutas brasileiras. Rafael Dabul

No plano de seus objetos, Washington explora a justificação, sobreposição, deslocamentos e tipos de cortes, fazendo com que o observador analise suas sensações. Ele aplica uma simbologia transformadora a peças que facilmente reconhecemos, mas desconcerta seu uso e o aplica para enfatizar o próprio uso deste objeto. É exemplo o serrote, feito totalmente em madeira, as raquetes de frescobol, perfuradas pelas bolas, o conjunto de martelos que martelam pregos uns aos outros.

Série Fábulas, 1999  Washinton Silvera


Sem título, 2010 Rafael Dabul

Série Fábulas,1999 Maicon Amoroso

Notadamente, há algo de errado nestes objetos, eles não servem para o que foram propostos, estão defeituosos, equivocados, errados. Há alterações em termos de material, dimensão, disposição espacial, construção. E há também uma beleza formal na superfície perfeita da madeira que os constitui. Das séries mais interessantes estão a que deforma instrumentos musicais e a que deturpa os aparatos esportivos ou de jogos. É sempre a ação que domina o universo do artista.

Objetos Acústicos, 2013 Rafael Dabul

Violão de parede, 2015   Rafael Dabul

Chicle, 2018 Washington Silvera

Big Lebowski, 2016  Rafael Dabul

3 chances, 2013    Gilson Camargo

Baseball, 2018

Outra série para pensar o uso das coisas, mas que vai além, é Loading on your mind. Impressões de imagens não completas da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci, uma lata da sopa americana Campbell’s, um backlight , obrigam o cérebro a “carregar” o restante da imagem inexistente no papel. Para não fugir da tridimensionalidade, um objeto formado por um meio espelho, tem a mesma finalidade, só que permite várias visões do cotidiano. Serve para: em olhar o reflexo, contemplar a imagem e assumir o restante dela, dentro da gente. É ou não é um poeta?

Loading, 2006  crédito Washington Silvera

Loading on your mind, 2006 crédito Rafael Dabul

Indicado ao PIPA 2012 e 2013, um dos principais prêmios de arte contemporânea nacionais, Washington apresentou seu trabalho na cidade onde nasceu, Curitiba, no interior paranaense, em São Paulo capital e interior, na cidade do Rio, em Joinville (SC), em Barcelona e Valência na Espanha, e recentemente na cidade do México. Das conceituadas feiras de arte nacionais, esteve na Parte e na SP-Arte, em vários anos consecutivos, e na badalada Arco Madrid.  Está em coleções particulares e instituições como Museo de la Solidaridad, Fundación Salvador Allende, em Santiago no Chile, Fundação Cultural de Curitiba, Museu Afro Brasil, em São Paulo, Ole Faarup Collection, em Copenhagen, na Dinamarca. Também publicou VIU?, livro com sua produção, incluindo um caderno de curiosidades com rascunhos de projetos, material de pesquisa e registros diversos.

Washington trabalha na reinvenção artística de objetos do cotidiano. É curioso, é instigante e colecionável. Nesta galeria de erros e exageros, o artista discute a representação na arte.

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