A arte de equilibrar oferta e demanda

Globalização, consumo de massa, economia de mercado e arte. O insaciável desejo de ter, consumir, adquirir, obter, perpassa eras e, continuamente, desafia o homem. É neste campo e também o dos desdobramentos sedutores que comunicam e publicizam os objetos dos sonhos, que a produção de Daniel Escobar se situa.

A transformação da mensagem e o uso do papel são correntes em seus trabalhos. Com muita destreza ele manuseia estilete, tesoura e outras ferramentas cortantes. O outdoor foi o primeiro elemento de comunicação que atraiu o artista em sua produção. A série Perto Demais deflagra as sobreposições oriundas do sistema de anúncios em outdoors, que cria pinturas fragmentadas a cada bi-semana. Usando um perfurador de escritório e criando rendas no papel, Escobar traz à tona mensagens ultrapassadas pelo tempo, antes cobertas pela novidade. Em parceria com outro artista – Andrei Thomaz -, criou Changing Landscapes, onde imagens dos catálogos comerciais de empresas que agenciam publicidade outdoor são catalogadas em um software que gera conjuntos de imagens justapostas, produzindo paisagens mutantes e a sensação de acúmulo, própria desse tipo de publicidade.

Permeável XVII (Perto Demais), 2011  Cartazes outdoor perfurados manualmente e sobrepostos. Fotografia: Alessandro Coelho

Changing Landscapes (com Andrei Thomaz), 2011  Software art | frame

O artista, nascido em Santo Ângelo e hoje residente em Porto Alegre – ele já residiu em Belo Horizonte – , criou sua própria teoria do consumo que ironiza o mercado, a sociedade emergente, a vontade da classe média trabalhadora. Ele trata do vazio da fantasia pela corrida insana de alcançar o patamar mais alto, no cansativo jogo de expectativas e frustrações da ascensão social.

Em A nova promessa, o artista brinca com o sonho da fortuna advinda das premiações que movem milhares de cidadãos às lotéricas. Frases retiradas de catálogos de prospectos de vendas de imóveis – outro desejo do brasileiro – são ornadas com fio dourado, em bilhetes de loteria. Quando o bordado preenche a lacuna dos números e as lacunas dão formato as letras, a união de vários bilhetes forma uma frase. Ela só é legível quando o espectador se move frente a obra a procura de luz sobre o ouro. Pelo menos duas questões são levantadas pelo artista: o espectador que se move em busca da riqueza, e o vazio das frases quando estão fora de seus contextos originais de beleza e vida plena.

Ária Petrópolis (A Nova Promessa), 2014  Bilhetes de loteria bordados com fio de ouro.  Fotografia: Alessandro Coelho

Ária Petrópolis (A Nova Promessa), 2014 | detalhe  Fotografia: Alessandro Coelho

Todos os nossos desejos é outra série que mexe com nossas aspirações. Um conjunto de 10 obras é agrupado gerando um grande painel horizontal. Nele, frames de vídeos orientam a criação de fogos de artifício, numa ambiciosa construção de momentos pirotécnicos plenamente possíveis. Porém, na verdade, os efeitos visuais foram feitos a partir de confetes recortados de cartazes publicitários descartados, que pela variação de tamanho, se desfazem, tal qual ambições e tal qual aquele produto que circulou exaustivamente na mídia com o slogam “Parece mas não é”, nos idos da década de 80. Linda e monumental poesia, tapeação, logro e ilusão.

Todos os Nossos Desejos, 2014  Confetes de cartazes publicitários colados sobre papel algodão.  Fotografia: Gui Gomes

Todos os Nossos Desejos, 2014  Confetes de cartazes publicitários colados sobre papel algodão.  Fotografia: Gui Gomes

A produção de Escobar já circulou pelo Brasil entre exposições coletivas, individuais, premiações e distinções. Faz parte de coleções públicas de museus no Rio Grande do Sul e no centro do país. Está em acervos privados na Espanha, Canadá e Estados Unidos. Ela é potente pela sua interpretação da realidade presente nos grandes centros urbanos e as expectativas que se erguem na tentativa de neles, se encontrar a felicidade, o conforto e a posição necessária para pertencer a algo que é mais simbólico que palpável. Com sutileza, Daniel – que preserva o pitoresco no dia a dia de sua vida privada – , apresenta suas percepções sobre todas as cobiças e consequentes angústias do homem comum contemporâneo, como se passasse imune a elas. Esse é o ponto de partida e o de chegada na elaboração de suas invenções artísticas.

Um de seus trabalhos bastante apreciado pela beleza plástica singela, a série The World, se apodera de cenários arquitetônicos e hábitos culturais de diferentes cidades do mundo, extraídos de catálogos de propagandas de turismo. Novos territórios e costumes são originados por estes recortes de publicidade, montados tridimensionalmente sobre guias. A obra critica a ideia de desvendar outros lugares a partir de uma programação prévia, o que torna o destino conhecido antes de se chegar lá. Esta série está em franca criação desde 2012.  Neste ano, um dos berços da civilização moderna, a Grécia, empresta suas ilhas ao urbanista Escobar.

Como escoher a sua ilha_Ilhas Gregas e Atenas (The World), 2019  Recorte sobre guia turístico  Fotografia: Daniel Escobar

Cuba 128-129 (The World), 2014  Recorte sobre guia turístico e acrílico.  Fotografia: Lucas Cimino

The World, 2011  Recorte sobre guias turísticos de diferentes lugares.  Fotografia: Sérgio Guerini

Istambul 100-101 (The World), 2014  Detalhe  Fotografia: Gui Gomes

O trabalho mais recente apresentado em galeria foi Conjugado. A instalação simula um espaço privado, um ambiente de um apartamento, cujas obras de arte de Escobar foram dispostas por livre escolha do profissional convidado a realizar a decoração de de qual cômodo projetar. A apreciação da arte no espaço expositivo, que é aberto a visitação pública, marca a passagem da obra para o âmbito particular do comprador/colecionador, elo final da cadeia artística. Escobar não se colocou à crítica popular, quem expôs seus trabalhos foi o arquiteto para a apreciação de uma persona, que sequer existia. Para quem é a arte afinal, para todos, para poucos? Dizem que a escolha das obras é o último estágio na arquitetura de interiores. Feliz desse proprietário que conseguiu montar a casa perfeita!

Conjugado (com Zeca Amaral), 2016  Ambiente doméstico planejado por um arquiteto utilizando móveis, acessórios e obras diversas do artista.
Fotografia: Anderson Astor

Coleção Particular, 2016  Acrílico com recorte e gravação a laser sobre página de revista de decoração.  Fotografia: Anderson Astor

Num primeiro momento, a produção de Daniel Escobar parece alarmista e maliciosa, embalada em delicadeza. Mas é tão somente a expressão de um questionamento que em certo momento de nossas vidas, nos fazemos. O que tem valor? Daniel mexe com as nossas fantasias materialistas, aponta o risco ao azar, enquanto apresenta a sorte e o investimento como garantias de uma vida completa. Nessa análise, a arte é aquela que mais provoca dúvidas, pois é ré e juíza. A questão é que o mercado existe, que cada um vive como bem quiser e ninguém deve opinar sobre o verde da grama do vizinho.

Foto de capa: Na fachada:  Letra de Câmbio (Compro Ouro), 2015  Letreiro de latão polido sobre fachada da Galeria Celma Albuquerque, Belo Horizonte.  No Interior:  A História Mais Curta, 2014  Letreiros de LED e programação. Fotografia: Aderlize Martins

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